Ações violentas e 'cinematográficas' de assaltantes se espalham pelo país

19 de Abril de 2016 às 14:07
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Era mais um dia comum para vigilantes de um carro-forte que havia deixado Ribeirão Preto e se deslocava para São Paulo pela rodovia Anhanguera. Até que um modelo de luxo fechou o veículo em Luiz Antônio (a 273 km da capital). Munidos de armamento pesado,ladrões atiraram até que os vigias se rendessem.

Uma das balas, usadas em baterias antiaéreas, atravessou a blindagem das laterais do carro. Em seguida, os homens explodiram o cofre, pegaram o dinheiro e fugiram.

Tudo foi acompanhado por dezenas de veículos cujos motoristas, assustados, travaram a rodovia, uma das principais do país. No caminho, eles ainda incendiaram o carro usado e desapareceram. O saldo foi um vigia ferido na perna e três afastados do trabalho por abalo psicológico.

Cinematográficas e cada vez mais violentas, ações iguais à de Luiz Antônio têm se tornado comum no interior de São Paulo e em outros Estados. Nos últimos dez meses, foram ao menos 15 ataques a veículos e empresas de transporte de valores em sete Estados, com mais de mil tiros disparados.

No último dia 4, por exemplo, uma empresa do setor foi roubada em Santos, no litoral sul paulista, em ação ousada que terminou com três mortes e chegou a interditar outra rodovia, a Anchieta.

Em novembro, moradores de Campinas, no interior de SP, também viverammomentos de terror. Cerca de 20 criminosos atiraram em carros, explodiram dinamites e, na fuga, atearam fogo em um caminhão -outro foi atravessado na rodovia Santos Dumont para interditar o tráfego. Assalto semelhante foi realizado em março.

DUELO DESIGUAL

As ações expõem a diferença gritante entre o armamento dos bandidos e das empresas de valores: enquanto os vigilantes portam revólveres calibre 38 e espingardas 12, as quadrilhas têm metralhadoras.50 e AR-15, entre outras.

"Os bandidos nem levam embora os revólveres 38 dos vigias, pois não servem mais. [Em um roubo] o vigia espera a morte. Se não morrer, fica no lucro", afirma João Batista Marcon de Castro, diretor regional do Sindforte (sindicato dos vigilantes).

A solução, segundo ele, passa por armar ainda mais os vigias e melhorar a blindagem dos carros-fortes. Especialistas e a ABTV (Associação Brasileira das Empresas de Transporte de Valores), porém, têm outras propostas, como controlar as fronteiras para evitar a entrada de armas e usar um sistema que destrói o dinheiro em caso de roubo.

"Tem de evitar a entrada de fuzis e metralhadoras.50, usadas em baterias antiaéreas, no país. Não há tecnologia de blindagem que suporte", diz Ruben Schechter, advogado especialista em segurança privada da ABTV.

 Para ele, as últimas ações têm se concentrado no interior de SP porque o acesso dos criminosos a rotas de fuga é fácil e "porque sabem que há deficiência de contingente na polícia". Além de SP, foram registradas ações contra carros-fortes em Pernambuco, Bahia, Piauí, Ceará, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

GUERRA URBANA

Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Guaracy Mingardi afirma que os ladrões estão mais violentos para evitar reações dos vigias. "Se chegarem com meia dúzia de revólveres, não vão intimidar ninguém. Com fuzis, dão a impressão de que vão causar estrago maior."

Para José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, a violência se explica também pelo custo-benefício do roubo. "É dinheiro vivo, principal alvo de qualquer bandido."

Seria possível reduzir as ações, afirmou Silva, se os carros-fortes tivessem um sistema que manchasse notas roubadas e os vigias tivessem armamentos melhores.

"A Europa usa um sistema em que, se tentar abrir o malote fora do horário e posição de GPS definidos para a entrega, ele se autodestrói. Com ele, pode levar o dinheiro numa Kombi, nem precisa de blindagem", disse o ex-secretário.

Schechter, da ABTV, disse que a Polícia Federal deveria ter um controle mais efetivo nas fronteiras para evitar a entrada de armas. Segundo ele, melhorar o armamento dos vigias -o que dependeria da aprovação de uma lei- é só um paliativo.

A Polícia Federal faz em média 40 operações especiais por ano e prende cerca de 300 pessoas, segundo o Ministério da Justiça.

Já a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo informou à reportagem que os roubos às empresas estão sendo investigados e, no caso de Santos, há recompensa de R$ 50 mil a quem der informações.

A Polícia Federal faz em média 40 operações especiais por ano no país, especialmente para atingir organizações criminosas, nas quais prende cerca de 300 pessoas.

ENTRADA DE ARMAS

A afirmação foi feita pelo Ministério da Justiça após questionamento da Folha sobre as críticas de especialistas em segurança pública sobre a entrada de armamento clandestino no país para o abastecimento de quadrilhas especializadas em roubos a carros-fortes.

De acordo com o ministério, a fiscalização nas fronteiras envolve estudos, atividades de inteligência, fortalecimento das instituições de segurança e operações integradas para combater o tráfico e o comércio de armas de fogo, drogas e outros produtos ilícitos.

Além disso, a Força Nacional de Segurança Pública tem efetivo deslocado para apoiar ações da PF e da Polícia Rodoviária Federal nas fronteiras e apoia órgãos estaduais, especialmente na Amazônia. Ainda segundo o ministério, unidades policiais em regiões de fronteira têm prioridade no uso de recursos para reforma, ampliação ou construção, além de moradias para policiais em locais afastados.

Já a Secretaria da Segurança Pública da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) informou que os roubos às empresas de transporte de valores em Campinas e Santos estão sendo investigados e que a hipótese da participação de uma mesma quadrilha ou de parte dela em ambos os casos não é descartada.

Três foram presos por envolvimento no roubo em Campinas e, no caso de Santos, a secretaria oferece recompensa de R$ 50 mil a quem der informações que levem à identificação dos envolvidos. Em relação ao roubo em Luiz Antônio, o Estado informou que diligências estão sendo feitas e que não poderia dar mais detalhes para não prejudicar a apuração.

Fonte: MARCELO TOLEDO - Folha de São Paulo

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Redação FENAVIST
Flávia Di Ferdinando
Lorena Braga